22/03/2010

Em 1990 e pouco..

Um mundo macro de cores, dança, autenticidade, e principalmente música surgiu em meu mundo micro trazendo identificação e conseqüentemente uma atração quase que inevitável pela cultura Hip Hop.
Neste contexto, dentre diversos outras novidades sonoras, surgia em meu player Viviane Lopes Matias, conhecida e popularizada nas ruas de São Paulo como a voz que liderava o grupo de rap feminino (um dos precursores na época) chamado Visão de Rua.
Jovem,mulher, periférica, sem pai, mãe, residência ou documento de identidade, carregava uma história de vida digna de um especial no mediano programa do Datena, com a sutil diferença, de que a história em questão se diferenciava do final da grande infeliz maioria devido a determinação, coragem, esperança, e romantismo com que Dina- Di conduzia e transformava cada magoa em rima.
Assim como quando somos crianças acreditamos que existe Papai Noel, ou quando na adolescência lemos Marx e inocentemente temos a pretensão de revolucionar o mundo, no auge de minha fase que antecedia meus vinte e poucos anos, sempre que ouvia as músicas de Dina Di sentia-me mais mulher.
Era uma época em que no Rap predominava o público masculino, e as meninas atrevidas que o faziam, tinham um discurso totalmente feminista que contradizia com a postura extremamente machista que inconscientemente adotavam, e acreditem, era o código de ética para impor o respeito naquele contexto.
Quem ouvia o grupo Visão de Rua podia imaginar encontrar uma mulher fria e calculista, como ela mesmo algumas vezes se intitulava na canção, mas por excelência do membro do lado esquerdo do corpo que é vulnerável, e neste caso especificamente gigantesco, Dina Di mesmo sem muita motivação para, explorava seu lado bom, e jogava nas ruas músicas cheias de vontade, carregadas de fé, de força,saudade, cotidiano, muita rua, e muito amor, e muita rua, e muito amor novamente.
Viviane Lopes Matias , para os que não tiveram o privilégio de acompanhar, além de compromissada MC,tocava violão e cantava, era carismática, mãe, humana e bem disposta: “tenho um filho de três, vou completar 26, e se preciso for eu volto ao zero outra vez”.
E por ironia do destino, na última sexta feira (19) no ato mais digno da condição feminina (parindo um filho) Dina Di faleceu vítima de infecção hospitalar, mais uma das muitas conseqüências que a precariedade e descaso do estado cometeu contra a mesma, só que está infeliz realidade, ela não mais terá o deleite de vomitar em suas letras.
Fica o legado dos CDS gravados, dos hits clássicos, dos prêmio Hutuz 2000 e 2001, e da memorável contribuição ao Rap desde os tempos primórdios.

PS:R.I.P Dina Di!

08/03/2010

08.03 - tim tim!

"O ser que, para a maioria dos homens, constitui a fonte dos mais vivos prazeres e, até — digamo-lo para vergonha das voluptuosidades filosóficas —, dos mais duradouros; o ser para quem, ou em benefício de quem, tendem todos os esforços deles; esse ser terrível, e incomunicável como Deus (com a diferença de que o infinito não comunica, porque cegaria e esmagaria o finito, ao passo que o ser de que falamos talvez seja incompreensível apenas por nada ter a comunicar); "... para quem e por quem se fazem e desfazem as fortunas; para quem, mas sobretudo devido a quem os artistas e os poetas compõem as suas mais delicadas jóias; de quem derivam os prazeres mais excitantes e as dores mais fecundantes — a mulher.."
“..A mulher é um reflexo de todas as graças da natureza condensadas num único ser; é o objeto de admiração e da curiosidade mais viva que o quadro da vida pode oferecer ao contemplador. É uma espécie de ídolo, estúpido talvez,
mas maravilhoso, encantador, que mantém os destinos e as vontades presas ao seu olhar.”
( CHARLES BAUDELAIRE)

04/03/2010

Bye bye Johnny!

Hoje faleceu aos 80 anos Johnny Alf, genial compositor, pianista e cantor, que dentre diversas outras contribuições, foi um dos grandes precursores da Bossa Nova, e inspirador fundamental na carreira de Tom Jobim dentre outros grandes.
Tem um texto de um blog ótimo que segue..
"..Preto, homossexual e filho de uma empregada doméstica viúva, ele nunca se identificou com o glamour desse jazz de cinema. Sempre preferiu os temas e os personagens marginais, as histórias de amor sem solução. Nunca foi desses músicos de holofote. Parecia ter escolhido o piano nos bares e boites como um espaço de reclusão.Uma coisa muito curiosa para um músico. Talvez por isso sua música tenha sido eternizada e admirada por todas as gerações posteriores.." aqui!
PS: Vivia há algum tempo em uma casa de repouso em Sto. André, morreu esquecido, e sem o reconhecimento merecido. R.I.P Johnny!

01/03/2010

Os caras lá da Vila!

Apática a toda bagunça carnavalesca, liguei CBN no trabalho somente na quarta de carnaval.Ouvia a apuração com a inocência de que meus dedos cruzados trariam boa sorte para a Vila Isabel, mais especificamente, era o samba de Martinho da Vila que me causava ansiedade.
O samba enredo de 2010 da escola carioca Vila Isabel homenageava o centenário de Noel Rosa, pessoa poeta com nome de flor que como mágica morreu aos 26 anos fazendo a conexão entre poesia, samba, morro e asfalto. Martinho da Vila com ciência da responsabilidade, segurou e não deixou cair. Lindo como sempre, humildemente assumiu nervosismo, mas sorrindo e devagarinho, audacioso mecheu na cadência do samba, defendendo que samba enredo como nos grandes carnavais de outrora deve ser menos acelerado. Causou preocupação para alguns, e admito, que por um momento pensei.. que em tempos de internet, Ipod, e passeios lunáticos, urbanóides não sensibilizariam-se com tal profundidade. Mas.. Grêmio Recreativo e Escola de Samba Unidos de Vila Isabel recebeu seis notas 10, confirmando o que já sabíamos: samba enredo dos Caras da Vila (o do céu, e o da terra) foi Dez!

Noel Rosa e Vadico (1930 cantam Vila isabel)
"..Quem nasce lá na Vila nem sequer vacila ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo
lá em Vila Isabel quem é bacharel não tem medo de bamba
São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba .."

Martinho da Vila (2010 canta Noel Rosa)

"..Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seus sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele a bordel
Mas sei que está presente
Com a gente neste laurel.." ouça-o aqui!
Até!